Apenas pensou, se por um desses acasos, alguém pudesse lembrar e pensasse como Eliot que “april is the cruellest month”¹. O abril dele florescia, o verão o supreendia como um aguaceiro; o abril dela era do frio ameaçar uma chegada, do ano já ter dito – ou dado pistas – de por que veio. Este já tinha, sim, falado bastante. Ou dissesse como Vinicius que os ares de abril não querem saber de dor. Pensando nisso, pensou em estações, em inícios e fins, em ciclos e em ritos de passagem – pensou na história da sua própria vida. Mexeu em coisas antigas para poder trazer algo interessante do passado. Nada achou. As coisas que escrevia tinham um prazo de suportabilidade exíguo. Mesmo aqui, com datas e nomes e correções mil, o arrependimento vinha. Alguém lhe contou que descobriu a escrita por redigir muitas cartas. E ela, por que escrevia? Lembrou-se claramente: escrevia porque tinha problemas.
Coloca método e força
Nesse grafite que arranhas
Grafite? Já faz tanto… folhas que encaminha para o lixo e, nos minutos finais, as resgata. Perde noite a relê-las e nega que seja ela mesma. Ela – não a mesma de agora, é certo – mas ainda que seja aquela de cinco, seis, sete anos atrás: não se vê, não se imagina. Mas não havia como negar: as havia organizado em uma caixa, por tanto guardada feito tesouro, meticulosamente em ordem cronológica. Depois, adotou o método dos cadernos a tiracolo. Freqüentemente os perdia – o que ela não perdia? – e continuava a escrever descontinuamente.
Expressão era feito de ânsia de dizer, não propriamente que necessitasse ser compreendida ou chegar realmente a algum lugar. Um medo? Quando ainda mais jovem, era a violação dos diários. Folhas preciosas, cheias de segredos presumidos por qualquer um. Inquietava-se só de pensar em alguém pousar nele os olhos, imaginava os risos, a exposição: corria, abria a gaveta. Não, ainda bem!, estavam a salvo – sempre estavam a salvo. Hoje, o que há para temer? Não por ter deixado de lado a ingenuidade ou a tolice, mas por já ter assumido o ridículo. Seus temores agora eram outros. “Quanto mais lês, menos aprendes”. Buscava o que era seu, essencial e inexpugnavelmente seu. Temia que tudo aquilo que consumia – e até então acreditava, assim, escalar para a sabedoria – turvasse o que realmente poderia ser aproveitável de si. Mas quem afinal pode passar por um temporal e não se molhar? Já não saberia dizer qual desassossego era seu e qual havia tomado para si. E quem pode passar inerte por tudo isso? Como poderia uma alma fraca feito aquela ser uma rocha para tudo, rebatendo com a dureza que não tinha todos esses ataques à sua superfície? “Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos”, lembrava da frase com que ganhou o mundo como lembrava que estava viva. Impressões – isso era um pouco como ela escrevia – eram elas que preponderavam. Não narrava fatos, personagens, nomes, circunstâncias, ambientes. Impressões, tão-somente. Sentimos e pensamos vagamente em como mudamos, mas quando escrevia tinha provas, sílaba a sílaba, de avanços ou retrocessos – trabalho difícil distingüir um de outro. Aceitar suas circunstâncias: havia se aconselhado mas não encontrava jeito de seguir. Nada exagerar, nada excluir.
Fui aquela que acreditou nas canções: destino e naftalina, nunca! Também acreditei naquele velhinho que dizia que devemos sempre sair para a rua como quem foge de casa. Quando saíssemos para uma longa viagem, levar a vontade de nunca mais voltar. Mesmo que voltemos! Mas e agora? Não fugi e os sonhos estão no sótão ainda. (02/01/08)
Quem se vai ali, olha, sou eu.
Sob a neve de papel que cai de um céu de janelas.
São janelas feitas de ar, todas iguais. Qual delas se abre por mim?²
Não sufocar-se, não perder-se, ter dentro de si uma bússola para apontar: é lá que eu sigo, é para o lado de lá que eu vou estar. Assumiu, ainda assim, a vontade de fazê-lo. Não porque acreditasse obter alguma vantagem, não porque quisesse agradar ou nem mesmo se entender, mas porque queria provar que tinha algo a dizer. A essência, a razão primeira: ter algo a dizer. Há quem venha ao mundo sem isso? Rejeitava a idéia de seres humanos com missão determinada. Se não tivesse, inventaria. Se não fosse sua, tomaria para si: assumiria postura – não era assim que vinha atravessando a vida?
Sufocava-a a reflexão sobre o exercício mais do que ele próprio. Entretanto, em datas específicas – não é que considerava datas mesmo? – deixava o dique da metalinguagem se romper. Contava sua história, mesmo que não fosse nada de novo. Inovar também não era uma de suas ambições. Nada pode ter o frescor da novidade (“não há nada de novo sob a rosa do sol”), nisso acreditava, mesmo.
Porque não podemos passar a vida pedindo palavras a outrem. Não se pode sobreviver para sempre somente nesse empréstimo. É uma sujeição desmedida aos pensamentos que outros tiveram. Sim, nos sirvamos deles: porque temos a irmandade com o mundo e com as coisas do mundo. Mas, ainda assim, que nossa satisfação não nos chegue tão cedo. Façamos nossos próprios porque nós também existimos. Acredito no que penso, porque hoje me faço assim, me pinto assim, me escrevo assim. Permito-me fazer, pintar, escrever. Quero me permitir ser, porque não quero inventar limites mais do que os que já possuo. (20/07/07)
1 – T. S. Eliot – O Enterro dos Mortos
2 – Neve de Papel – Vitor Ramil (Longes, 2004)